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Consciência Negra

Dia Nacional da Consciência Negra: uma reflexão sobre o papel da Universidade na luta da população negra

Por Joice Danielle Nascimento | Publicado: Domingo, 20 de Novembro de 2022, 07h00 | Última atualização em Segunda, 21 de Novembro de 2022, 10h03

Mulheres da comunidade acadêmica da UFT fazem uma reflexão sobre o dia 20 de novembro e falam dos avanços e desafios da população negra no ambiente universitário 

Celebrado anualmente em 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra é um marco da luta histórica do povo negro no Brasil. A data, escolhida por se tratar do mesmo dia da morte de  Zumbi dos Palmares, personalidade de referência na luta contra a escravidão no país, propõe a valorização e o protagonismo da cultura e das raízes ancestrais  do povo de origem africana e a desconstrução da ideia de subalternidade atribuída à população negra, que está diretamente associada ao longo período de escravidão no Brasil. 

Estabelecido pela Lei n° 12.519, de novembro de 2011, o dia 20 de novembro como data-símbolo da conscientização da população negra em relação ao seu valor, começou a ser pensado ainda em 1970, pelo professor, pesquisador e escritor negro Oliveira Silveira. Criador do Grupo Palmares, dedicado à discussão da cultura e literatura negras, em Porto Alegre. À época, Silveira propôs a criação de uma data que resgatasse a essência da luta e resistência da população negra no Brasil, que culminou na escolha do dia 20, exatamente pela representatividade de Zumbi dos Palmares.

Por isso, para além de uma homenagem, a data reflete o orgulho da cor da pele preta, assim como também reforça para a população afro-descendente a consciência de suas lutas e a importância da valorização de sua cultura  perante a sociedade. Além disso, a data oportuniza a discussão de temas como a igualdade racial, o racismo, desigualdade social, principalmente dentro do ambiente educacional, sobretudo no que diz respeito à Universidade e seu papel na valorização e na construção das epistemologias negras.

O papel da Universidade e os desafios 

A professora Solange Nascimento, que é a atual coordenadora de Ações Afirmativas da UFT, explica que, a instituição do Dia Nacional da Consciência Negra se constitui como um momento de reflexão para toda a sociedade: “Hoje, nós temos o dia 20 de novembro pautado no calendário nacional, ele é feriado em alguns municípios e estados, mas ele não é um feriado instituído ainda nacionalmente. Mas, mais do que pensar nessa data  como feriado, é a gente pensar como um momento necessário de debater e de discutir sobre o direito da população negra, principalmente, ainda  no enfrentamento ao racismo estrutural e ao racismo institucional que, mesmo hoje em pleno século XXI, nós ainda temos que conviver com inúmeras situações de manifestação de racismo em nossa sociedade”.

Solange Nascimento enfatiza ainda, que hoje, dentro desse contexto histórico de luta, a Universidade desempenha o papel de colocar as questões da população negra em discussão, além de contribuir para uma mudança social : “A Universidade tem um papel muito importante no que se refere à visibilidade da luta da população negra, principalmente com a política de cotas, que nós temos e que mudou o perfil da Universidade. Porque a Universidade nunca foi pensada para a população Negra. Ela nunca foi um lugar para o negro, para a mulher negra, para as pessoas de classes subalternizadas, para pessoas indígenas. A Universidade não foi pensada para esse público. E quando nós temos uma política de cotas, em que essas pessoas estão dentro da Universidade e que essas pessoas se mobilizam e constroem nessa data, no Novembro Negro, e não só em novembro, mas durante todo o ano letivo, atividades de visibilidade, de discussão política e crítica sobre a situação do negro, eu vejo que ela é de grande importância e que se configura como um do espaços em que efetivamente a gente consegue perceber uma mudança social, não só pelo ingressos desses alunos, no espaço universitário, mais como isso acaba acarretando mudanças nesse lugar”.  

No entanto, a professora Solange pontua que há barreiras que ainda precisam ser vencidas: “Eu vejo que nós temos um caminho muito longo ainda a percorrer. Embora tenhamos tido alguns avanços, ainda existe uma dissonância e um descompasso na questão do acesso aos direitos, de respeito à pessoa humana. As pessoas negras ainda são o maior número de pessoas encarceradas, a população negra ainda é a população que mais sofre violência, todo o tipo de violência e as mulheres negras estão na base da pirâmide social. Então, nós temos aí mais de 120 anos depois da abolição da escravatura, uma sociedade que está repleta de reverberação desse projeto de escravização, desse projeto colonial que vai se reinventando e criando outros mecanismos de exclusão, atualizando formas de exploração dessa população. E nesse contexto, a Universidade é um potencializador de resistências. E aí, é primordial pensar nesse espaço como um espaço em que os saberes dos povo tradicionais, os saberes da população negra se agreguem”. 

A pró-reitora de Extensão, Cultura e Assuntos Comunitários (Proex) da UFT, Maria Santana Milhomem frisa que o papel formativo da Universidade se constitui como um dos principais recursos na luta para uma sociedade brasileira mais justa, igualitária e anti-racista: "A Universidade tem um dos principais papeis: o da formação. Se ela cumprir esse papel, teremos uma sociedade preparada para enfrentar os desafios em relação ao preconceito, discriminação e a exclusão. Volto com a palavra formação. O povo brasileiro necessita urgentemente de formação em relação ao tema para ter capacidade de pensar criticamente a respeito das questões ligadas as minorias. No caso da UFT, é através dos processos formativos, de políticas públicas consistentes que conseguiremos promover essas mudanças". A pró-reitora também pontua, que há processos importantes na Universidade que devem ser vistos com atenção, como os dados sobre a permanência dos estudantes cotistas: "No entanto, estamos com uma década das cotas no ensino superior e não temos dados concretos como está o ingresso e a permanência dos estudantes nas instituições de ensino superior". 

Para a professora Ana Lúcia Pereira, que faz parte do Colegiado do Curso de Direito da UFT e coordena o Núcleo de Extensão e Pesquisa “Igualdade Étnico-Racial e Educação”, é fundamental que, principalmente a universidade, leve as discussões que dizem respeito a população negra para além do dia 20 de novembro: “Eu fico muito arrasada quando só reservam o dia 20 de novembro para discutir as questões raciais. Eu acredito que diante dos avanços que nós temos, o retrocesso é se limitar à Semana  da Consciência Negra. Então é nessa semana, que você vai ligar a televisão e vai ver filmes sobre a questão do negro, é nessa semana que eu sou entrevistada, e nessa semana que eu sou convidada a dar palestras, é nessa semana que a gente é convidado a estar presente nos eventos que a Universidade faz, mas depois, nós somos esquecidos. Então eu considero que o peso da data de hoje tem  se tornado justamente um alerta  para a gente perceber que nós avançamos no que tange a inserir esse debate, mas nós gostaríamos que as pessoas tivessem consciência o suficiente para pautar a questão racial diuturnamente porque nós vivemos e estamos no mundo todos os dias, nos 365 dias dias do ano”. 

A professora ressalta ainda que a UFT, especificamente, tem uma responsabilidade muito grande enquanto instituição de ensino de um Estado que tem a maior parte de sua população se  declarando como negra e aponta onde a Universidade precisa melhorar: “Quando agente pensa na Universidade Federal do Tocantins, sobre o papel dela na luta negra, é de fundamental importância , porque o Estado do Tocantins tem mais de 70% da população que se autodeclara preta e parda, então a Universidade Federal do Tocantins precisa estar atenta, no que tange a presença negra enquanto alunos que estão na Universidade , em termos de atendimento, acompanhamento, políticas de ações afirmativas que prevê, não só a entrada deles, mas o sucesso e a permanência. Eu acredito que a UFT precisa montar as bancas de heteroidentificação, verificar se nós não temos alunos que estão entrando pelas políticas de cotas, se autodeclarando preto e pardo  sem ser , ela precisa estar cuidando  desses alunos negros, que estão aqui e também incentivando as pesquisas abrindo editais com pesquisas que tenha esse corte étnico-racial. Então a Universidade tem um papel fundamental nessa área”.     

Para Gabriela Cardoso Carneiro, que é estudante do Curso de Jornalismo da UFT, o Dia Nacional da Consciência Negra é um momento de reflexão: “Então, 20 de novembro é uma data, não de comemoração, mas como uma forma de refletir e analisar a posição, as situações e as condições em que a população negra se encontra atualmente no Brasil. É uma data de reflexão, para se pensar  e analisar questões políticas, estruturais, sociais, culturais de como esse povo é retratado na nossa sociedade. Isso já demonstra a importância da data e além disso, é uma forma de valorização também dessa cultura que está presente no Brasil e que de certa forma sofre um apagamento. Ter esse dia para relembrar e refletir sobre essas questões e pensar porque as pessoas negras são as mais atingidas socialmente, são as que mais enfrentam violência na sociedade, sofrem racismo. Então, além de ser uma data de tomada de consciência, é uma data de movimentação, de ver o que já foi feito, o que conseguimos conquistar e seguir na luta pelo reconhecimento da população negra socialmente”.   

Sobre o papel da Universidade em relação a luta da população negra, Gabriela frisa o espaço acadêmico é um elemento potencializador da voz negra, mas destaca que é preciso avançar : “A Universidade tem um papel muito importante, no que diz respeito ao fortalecimento do protagonismo da população negra porque, a partir do momento que a população negra começa a entrar na Universidade é uma forma também de trazer para a sociedade, voz desse povo, que por muito tempo não teve acesso ao ensino superior. E a Universidade pode desempenhar o papel de fortalecer e fomentar esses debates  dentro deste espaço e fora dele, levando para toda a comunidade, contribuindo para que a população negra consiga não só entrar na universidade, mas ter uma  formação acadêmica de excelência  e ter condições de fato de concluir o curso. Porque, mesmo com a Lei de Cotas, é necessário que se tenha também, políticas que ajudem essas pessoas a se manterem dentro da Universidade”.  







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