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Série Especial - Especializado I

Artesanato na Feira do Bosque: riqueza negligenciada

Por Sarah Tamioso, Lourranny Parente e Andréia Fernandes | Orientação: Profª Lúcia Helena Mendes | Publicado: Quarta, 31 de Outubro de 2018, 16h17 | Última atualização em Quarta, 31 de Outubro de 2018, 17h48
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A produção artesanal no Tocantins tem grande importância econômica e social, sendo a Feira do Bosque a maior referência desse mercado no estado.

No Brasil, segundo pesquisa da doutora Emanuelle da Silva (2016), realizada com 210 cooperativas e associações de artesãos, o setor do artesanato move cerca de metade dos recursos de faturamento de supermercados e se aproxima da indústria automobilística. Já de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (BRASIL, 2013), o artesanato corresponde a 3% do PIB e conta com mais de 8,5 milhões de trabalhadores artesãos.


A Feira do Bosque, localizada próximo à prefeitura, foi inaugurada em 1996 pelo, então prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos. A feira surgiu com a intenção de reunir os artesãos que se encontravam espalhados pela capital e em 2009 foi elevada a Patrimônio Turístico e Histórico do Tocantins. Na feira são expostos produtos como quadros, crochê, bonecas de pano, bijuterias e objetos de capim dourado, caixas artesanais, lembranças de aniversário e chá de bebê, artefatos decorativos, entre outros.

 

Segundo os dados mais recentes da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Emprego (SEDEM), cerca de 230 feirantes expõem seus produtos, movimentando pelo menos 9 milhões de reais por ano e gerando empregos diretos e indiretos para aproximadamente 720 pessoas. De acordo com a SEDEM, em 2 anos, a secretaria passou de cerca de 4 mil para 17 mil microempreendores no município e tem buscado incentivar e facilitar os pequenos negócios.

 

A realidade dos feirantes

 

Valquíria Messias Ferreira tem sua banca de capim dourado na feira há 13 anos, é professora e aprendeu o ofício quando se mudou de Ponte Alta do Tocantins para Palmas. “Antes a gente contava com o apoio da associação dos artesãos, uma outra gestão, que tinha camiseta, sacola e selo de produção, mas hoje a gente não tem apoio nenhum, eu por exemplo comecei a pagar a associação, hoje não pago mais, porque não tava vendo retorno do meu dinheiro. Então eu e meu marido fomos ao SEBRAE e fizemos o cadastro no MEI para ter uma garantia que eu sou dona aqui na barraca”, conta a artesã enquanto produz uma de suas peças.

 

 A artesã Valquíria Messias produzindo peça de capim dourado

 

Outra demanda que Valquíria apontou é a falta de fiscalização na compra de sua matéria prima. “Eu já fiquei sabendo que tão (sic) levando nossa matéria prima para fora, e não tem, por exemplo, uma associação para nos proteger. Por lei só quem pode comprar e transportar o capim dourado in natura né (sic), é quem é associado, mas não tem nenhuma fiscalização forte quanto a isso”.

A respeito dos clientes do capim dourado, sabe-se que o tocantinense não é quem mais usufrui, o artesanato dessa matéria é mais valorizado em outras regiões e, por essa razão, foi relatado que as vendas são maiores nas férias, tanto em razão dos turistas que querem levar lembranças, quanto dos moradores que querem levar as produções para seus parentes.  

 

Associação dos Expositores da Feira do Bosque

 

Dentre os entrevistados, somente uma, Dona Rosa Maria, afirmou contribuir com a Associação dos Artesão, os demais justificaram não ver benefícios nesse investimento. A taxa do associado é de 20,00 reais para artesão e 30,00 para gastrônomos, mas segundo a presidente da Associação, Morgana Lima Martins, somente metade dos feirantes efetua o pagamento em dia. Dona Rosa, associada, justifica a contribuição como uma garantia de seu ponto na feira, embora isso não corresponda necessariamente à função da Associação, já que, conforme Morgana, a taxa serve para manter administrativamente a feira, seja na manutenção dos banheiros, xerox de documentos, etc.

 

 A Associação gerencia ainda o controle de feirantes, sendo que para ingressar, o produto deve ser de um segmento artesanal ou gastronômico diferenciado dos já oferecidos, além de uma burocracia na qual pelo menos 70% da produção deve ser artesanal. A presidente elucida ainda que deve ser preenchido o documento de registro de produtor, ser microempreendedor e seguir o estatuto da Feira do Bosque.

 

A fim de conhecer mais realidades da Feira, nos deparamos com o Sr. Cosmos Lourenço, vice-presidente da Associação, que reforça que o papel da entidade é administrar a feira e lutar por seus direitos. “A gente não consegue nada com a prefeitura só briga. O Amastha nem põe o pé aqui, nunca veio. Aqui ninguém gosta dele porque ele quer é acabar com a feira. A Cinthia também não fez nada, continua na mesma linha do Amastha, quem manda nela é ele. A ideia dele é acabar. Ele já tentou, mas nós derrotamos ele três vezes na justiça, ele perdeu em Brasília porque a gente tem direito aqui, se depender dele ele acaba com todas as feiras. Não é fácil sabe? A gente não tem apoio deles”, conta o vice.

 

 

Vice-presidente da Associação, Cosmos Lourenço

 

A respeito da postura municipal, a artesã Valquíria Messias confirma. “Na administração do Amastha piorou muito pra nós, até na Feira ele quis mexer. Ele quer colocar os empresários aqui e tirar a gente que tem barraca e trabalha no artesanato há tanto tempo. Mas a gente continua aqui, né? (sic) Até agora a gente continua lutando pra vender aqui na feira”. 

 

Discussões judiciais e a revitalização da Feira

 

Estranhamente, segundo o secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico e Emprego, Kariello Coelho, nunca houve problema na gestão do prefeito Amastha e nem na da atual prefeita Cinthia Ribeiro. “Isso é uma total inverdade, nunca houve briga judicial, nem em Brasília, pois a feira é municipal”, afirma Kariello.

A prefeitura gasta cerca de 12 mil reais por mês com despesas da feira, como energia, limpeza e manutenção e, ainda segundo o secretário, um projeto está sendo desenvolvido para o ano de 2019, a fim de renovar as barracas e organizar as áreas de alimentação e artesanato. A intenção seria uma reforma para melhorar a estrutura e retomar as atividades culturais. “A Fundação Cultural irá preparar editais para que todo domingo tenha um show ou alguma apresentação cultural”, promete o secretário.

Em contrapartida, embora o secretário tenha afirmado manter uma boa relação com a presidente da Associação, Morgana, eleita há um ano e meio, ela relata que a relação com a prefeitura é de “abandono total” e há 5 meses não tem novidades. “Com o município não temos nenhum tipo de parceria, já foram apresentados projetos e ideias, mas nada que saísse do papel”, relata a presidente, que continua, “já tivemos vários impasses com a prefeitura, porque na gestão do Amastha havia um projeto muito ruim para licitar os pontos da feira e desconsiderando totalmente a história e os pioneiros que alí estão, diante disso a associação se posicionou e barramos. Então tivemos vários impasses, várias discussões com a prefeitura e talvez por isso eles abandonaram a gente”.

 

 

Tendo em vista que muitos feirantes tiram 100% de sua renda da feira, a geração de empregos e a movimentação econômica de R$ 9 milhões anuais, o investimento de R$ 144 mil reais anuais da prefeitura se apresenta baixo, dada a quantidade de benefícios para o município. Em função do sentimento de abandono, a presidente conta que o governo do estado do Tocantins firmou compromisso para contribuir as demandas dos feirantes.

A respeito das discussões judiciais, embora as testemunhas confirmem e a presidente da Associação alegue ter os documentos em confidência, a assessoria do ex-prefeito Amastha negou que houve confronto.

Aguardemos agora 2019 e a afirmação de revitalização da Feira do Bosque para que as demandas dos feirantes sejam atendidas e a feira represente ainda mais a cultura e a resiliência dos povos tocantinenses e nordestinos por meio do artesanato.  (Texto por Sarah Tamioso, Lourranny Parente e Andréia Fernandes | Fotos por Sarah Tamioso)

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